Crônica da morte de Mineirinho, Clarice Lispector, 1962

É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que esta doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: ‘O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.’ Respondi-lhe que ‘mais do que muita gente que não matou’.

Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina – porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for preciso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente – não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.

Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho – essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar ‘feito doido’ de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador – em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porquê adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.

Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo – uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muita séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.

Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.

O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.

 

 

 

 

8 comentários

  1. Janaina Tavares
    Janaina Tavares 28 de agosto de 2013 at 16:18 |

    Anotações sobre o Conto: Mineirinho de Clarice Lispector [1962]

    O conto me fez refletir demais. E me identifiquei com ele, no que diz respeito a defesa dos DH. Humildemente falando, acredito que a existência da lei não é e nunca será garantia do comprimento desta, analiso isso no trecho: “…No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim. Esta é a lei… ”
    Outra passagem que me chamou a atenção: “Sua violência inocente – não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.” Essa afirmação ou talvez provocação da autora, de que somos culpados pela violência do outro. Ou por essa justiça sonsa e injustiça, sim, justiça injusta. Me trouxe em mente um exemplo, um tanto radical, de que quando o marginal assalta uma pessoa no sinal por exemplo, levando seu celular, carro, enfim, um tempo depois, essa pessoa assaltada comprará outro celular, o seguro do carro lhe dará outro automóvel. Ou seja, de certa forma, alimentamos essa violência.

    Por fim, o trecho que mais chamou minha atenção, foi a definição de Deus. Afirmou minha concepção de que Deus é um mosaico coletivo. Criamos e recriamos sua personalidade, atitudes e vontades. ”…se adivinhamos a bondade de Deus é porquê adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser pai de outro homem… Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada… ”

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  2. Daiene Mendes
    Daiene Mendes 28 de agosto de 2013 at 10:34 |

    Fenomenal!! – compartilho o trecho q mais me chamou atenção:

    “…sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender…”

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  3. Leda Lessa
    Leda Lessa 27 de agosto de 2013 at 11:59 |

    Clarice mexe com sentimentos guardados em nós e que tememos enfrentar.
    Estamos guardados em nossas casas quentinhas enquanto mineirinhos são assassinados por “justiceiros”nada melhores que êles.
    O sentimento da cozinheira,era o mesmo de minha tia que na minha infância, contava a história de Mineirinho que segundo ele, roubava dos ricos para distribuir ao pobres nas favelas.A história do Hobin Hood urbano, encheu o coração da menininha que eu era, de tisteza e comoção.

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  4. Sandra Lima
    Sandra Lima 23 de agosto de 2013 at 16:59 |

    Universidade das Quebradas- UFRJ
    Aluna : Sandra Lima
    Título
    Crime Particular

    Reflexões sobre “CRÔNICA DA MORTE DE MINEIRINHO”, de Clarice Lispector (1962).
    Assim Clarice desabafa entristecida, por saber que nem sempre o que julgamos justo é justiça:
    É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora.
    Na mais profunda reflexão, a escritora se coloca pura e simplesmente no lugar de
    ser humano, tão vulnerável e inconstante, tão cheio de dúvidas, angústias e traumas.
    Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado.
    Clarice Lispector, refere-se a um assassino, conhecido por seus crimes, como facínora. Mas quantos “facínoras” cruzam os nossos caminhos nessa sociedade capitalista e sem ética?
    Convivemos em nossa vizinhança, nossos cursos, nosso trabalho no comando do nosso País, e até mesmo dentro da nossa casa, com delinquentes, perversos, salafrários. Nós renegamos a natureza animal instintiva e violenta, que há dentro de TODOS os humanos, principalmente dentro de nós mesmo. Devíamos sentir, além das nossas dores egoístas, as dores de uma sociedade perversa que nos influencia pela busca primitiva e não divina. Talvez Clarice tenha querido dizer, na frase abaixo, que algo poderia ser diferente se fôssemos capazes de buscar o divino em nós e não apenas o instinto animal de sobrevivência, vestido de hipocrisia.
    Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime.
    No fundo somos ignorantes, preconceituosos e hipócritas. Sentimos medo do diferente, do transgressor, quando na verdade o bem e o mal estão dentro de cada um de nós, e achamos seguros a aparência de cidadão de bem, de chefe de família, de pais exemplares. O TEATRO cotidiano é a nossa zona de conforto, onde estamos protegidos por nossas máscaras, e com as mesmas convencemos os outros de que somos normais.
    O que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranquila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa
    Não é o Mineirinho, nem seus assassinos, nem Clarice, nem eu, nem você o X da questão, e sim até que ponto nossa consciência está consciente de quem somos, do que aparentamos ser, ou do que somos capazes.
    Os casos citados a seguir são reflexo de nossas complexidades, dualidade e desequilíbrio na condição de ser humano. Talvez seja isso que Clarice diz quando inicia o texto.

    1-Ciúmes, sentimento nosso de cada dia.
    Em 1992, a atriz Daniella Perez – filha da novelista Glória Perez, foi assassinada com 18 golpes de tesoura, no Rio de Janeiro. O Motivo, um sentimento conhecido por todos nós, o ciúme.
    2- Vingança, todos nós já provamos o seu sabor
    Outro sentimento latente em todos nós é a vingança, sentimento esse que levou Hildebrando Pascoal, em 1996, matar e torturar, Agílson Santos, o Baiano, e jogar seus restos mortais em uma avenida de Rio Branco (AC). Baiano teria sido executado por suposto envolvimento no assassinato de Itamar Pascoal, irmão do então coronel Hildebrando Pascoal.
    3- Dinheiro, desejado por todos nós
    O mal que assola nossa sociedade capitalista, é o poder do dinheiro, poder esse que para ser conquistado, alguns não medem esforços, nem tem pudor algum. Que tipo de necessidade é essa que leva homens a sequestrar e matar uma criança? Ives Ota, então com 8 anos, foi sequestrado por três homens na cidade de São Paulo em 1997. O menino foi sedado e assassinado com dois tiros no rosto antes de qualquer contato dos sequestradores com a família. Ele foi morto porque reconheceu um de seus raptores, um policial militar que fazia segurança particular nas lojas de seu pai.
    4- Vida corrida, falta de limites, valores substituidos.
    A correria pelo sucesso, status, dinheiro e poder muitas vezes fazem com alguns pais não tenham tempo de dedicar aos filhos ensinamentos morais, e acreditam que os professores, a escola e o universidade tem o dever de educar seus filhos, se livrando de suas responsabilidades. O professor não tem nem a obrigação e nem condição de reconhecer a falha de caráter, a carência, ou algum distúbio no aluno, porque não passa tempo suficiênte com o mesmo.
    Essa distância entre pais filhos, gera a falta de afeto, a substituição pelas coisas materiais, a falta de limites. Em fevereiro de 1999, o calouro de Medicina da Universidade de São Paulo Edison Tsung Chi Hsueh, 22 anos, foi afogado em uma piscina da instituição durante uma festa de confraternização com trote. Cerca de 200 estudantes participaram do evento. Em cartas, os estudantes relataram que havia muitos alunos alcoolizados e que veteranos atiraram vários deles na piscina. Um dos calouros disse que os colegas pisavam nas mãos dos jovens para que eles não conseguissem sair da piscina.Na época muito se acusava a Universidade pelo ocorrido, quando na verdade esses jovens não tiveram limites dentro de casa, se tivessem base moral esse fato não teria ocorrido.
    5- Traumas e preconceito, uma fábrica de monstros.
    Em 12 de junho de 2000, Sandro do Nascimento, sobrevivente da chacina da Candelária, sequestrou um ônibus da Linha 174, no Rio de Janeiro. Ele manteve os passageiros reféns por mais de quatro horas, enquanto toda a negociação era transmitida ao vivo pela televisão. Após a libertação de alguns reféns, Nascimento desceu do coletivo usando a professora Geisa Gonçalves como escudo. Ao tentar atingir o sequestrador, um policial baleou a refém de raspão. Nascimento disparou mais três tiros contra a professora, que morreu no hospital.
    Somos animais racionais? até que ponto?, não poderia uma dor profunda, a solidão, o desprezo, e o medo trazer a tona nosso instinto animal de sobrevivência a ponto de nos transformar em fera, e não em ser humano.
    O Que nos torna diferentes na condição animal é a educação, o afeto, que nos
    é dado, logo, sem isso somos animais, lutando pra sobreviver nessa selva chamada vida.
    6 – O Fato de ser pai ou mãe, não tira de nós o erro que muitas vezes cometemos, de passar aos nossos filhos valores reais.
    Em outubro de 2002, o casal Manfred e Marísia von Richtofen foi encontrado morto em sua mansão em São Paulo. Uma semana depois, a filha do casal, Suzane von Richthofen, na época com 18 anos, confessou envolvimento no crime. Pouco tempo depois, o namorado de Suzane na época, Daniel Cravinhos, e o irmão dele, Christian, também foram presos e confessaram terem matado o casal com golpes de barra de ferro. Os três planejaram o assassinato para que Suzane ficasse com a herança dos pais.
    Que tipo de relação existia embaixo daquele teto? Quais os valores inseridos na educação desses jovens? Não quero justificar o injustificável, quero apenas lembrar da nossa humanidade, nossos eu, como desabafa Clarice: É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora.
    7- Ganância e Intolerância:
    A missionária americana Dorothy Stang, 73 anos, foi morta com sete tiros em fevereiro de 2005, na cidade de Anapu, no sudeste do Pará. Dorothy era defensora dos direitos de pequenos produtores rurais da região paraense de Altamira, área de intenso conflito fundiário. O homicídio ganhou repercussão entre as entidades ligadas aos direitos humanos em todo o mundo.
    A Sociedade evolui, surgiram as leis, mas quão antigo é a luta pelas terras, motivo de guerras, ou será que esquecemos todos os fatos históricos que levaram a genocídios, pura e simplesmente pela terra.
    8 – Covardia:
    A menina Isabella Nardoni, 5 anos, morreu após cair da janela do prédio em que moravam seu pai, Alexandre Nardoni, e sua madrasta, Anna Carolina Jatobá, em São Paulo, em março de 2008. Segundo a perícia, a criança foi agredida dentro do automóvel da família e depois estrangulada no apartamento por sua madrasta. O pai, acreditando que ela estivesse morta, atirou-a pela janela para simular um ataque cometido por uma terceira pessoa.
    Quantas vezes não somos covardes em nossas atitudes, quando viramos as costas para uma criança faminta, ou em condição de risco.
    Muitos de nós não tocariamos numa criança, mas muitas vezes o que deixamos de fazer é tão grave quanto.
    9 – Desespero:
    Em outubro de 2008, Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, foi mantida refém por 101 horas pelo ex-namorado Lindemberg Alves, 22 anos, em Santo André, no Grande ABC Paulista. Foi o mais longo caso de cárcere privado no Estado de São Paulo. Inconformado com o fim do relacionamento, o motoboy invadiu o apartamento em que Eloá morava com a família e rendeu a adolescente e sua melhor amiga, Nayara Rodrigues da Silva.
    Quem não se viu em uma situação de desequilibrio total, de desespero?
    Sim, talvez algum de nós não chegue a tal ponto, mas quem é capaz de garantir que
    nada, nunca o fará sofrer um desequilibrio mental.
    10 – Crime Sexual
    Em junho de 2010, o lavrador José Agostinho Bispo Pereira, 54 anos, foi preso acusado de ter relações sexuais com a filha ao longo de 17 anos e gerar sete filhos com ela, em uma ilha onde moravam isolados próximo a Pinheiro, no interior do Maranhão.
    Um caso doentio, um afronto a moral e os bons costumes, mas estaria esse homem
    seguinto apenas seu instinto primitivos, animalesco? O que aconteceu para que
    perdesse toda noção, todo senso e se tranformasse numa aberração.

    Em todos esses 10 casos, podemos observar que os elementos citados como transgressores , passariam por nós pela rua, morariam na casa ao lado da nossa
    ou até mesmo em nosso seio familiar sem levantar dúvidas a respeito de seu
    caráter.
    Reparem que a única exceção é a do jovem Sandro do Nascimento, ex-morador de
    rua, sobrevivente de uma chacina, para a sociedade um elenco nocivo e perigoso.
    Seria isso que Clarice queria nos dizer?
    Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho – essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar ‘feito doido’ de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador – em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição.
    Então eu me pergunto e não consigo respostas:
    Quantas Clarices será preciso haver para nos causar a dor da reflexão?
    Quantos Mineirinhos, e Amarildos ainda vão ser julgados por essa justiça, virar vítimas de um crime particular?

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  5. juliana Barreyo
    juliana Barreyo 22 de agosto de 2013 at 21:11 |

    Desafiador. Texto que por sua essência me impele a interagir com ele. Ele não me serve para abastecer meu estoque de conhecimento, ele me induz a ações práticas de justiça. E nisso consiste seu desafio latente. Muito bom!

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  6. rute casoy
    rute casoy 21 de agosto de 2013 at 18:11 |

    O texto é desconcertante como sempre é tudo que a Clarice escreve, não é não?

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  7. ZineØØ
    ZineØØ 21 de agosto de 2013 at 14:16 |

    Muito bom !! catei essa referência a partir do Zuenir Ventura, que revelou-nos a Cidade Partida _um conceito q pessoalmente não concordo… mas enfim, boa lembrança do Paulo, a Universidade das Quebradas emanaando cultura _cada vez mais !!
    **boa vinda a todxs novos quebradeiros! Flavio Pé, espero estar contigo um dia desses! embreve – com todxs!
    _xnd_

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  8. Jussara Santos
    Jussara Santos 21 de agosto de 2013 at 11:41 |

    Profundo. E muito bem colocado na palestra do Paulo H.
    Obrigada Clarisse por nos deixar com o seu “Mineirinho”, que são representados em tantos, e pelo jeito, eternamente.

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