Tem quebradeira entre os vencedores do Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas

O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) anunciou hoje os vencedores do Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas 2015, durante o workshop para jornalistas Drogas em Pauta, na Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro.

O jornal Zero Hora ganhou o prêmio principal,  no valor de R$ 7 mil, com o especial “Maconha – É hora de legalizar”, um dossiê que combinou informações históricas, grande diversidade de opiniões e análises, contextualização internacional, entrevistas, artigos e editorial. O dossiê foi assinado por Leandro Maciel, Nilson Mariano, Leonardo Azevedo, Eduardo Oliveira e Jefferson Botega.

O trabalho vencedor do segundo lugar, com prêmio no valor de R$ 3 mil, foi destinado a um veículo comunitário: o emocionante depoimento de um usuário de crack, intitulado “Prazer, meu nome é Reginaldo, não cracudo”, publicado pelo jornal Maré de Notícias e escrito pela jornalista (e quebradeira) Rosilene Miliotti.

Este ano, a comissão julgadora e os organizadores do prêmio decidiram ampliar o número de premiações. Foi criado, assim, um terceiro prêmio,  no valor de R$ 2 mil. A  jornalista Dandara Tinoco, do jornal O Globo, foi a escolhida, pelas três reportagens que inscreveu no concurso “Crack, uma outra abordagem”; “Discórdia semeada” e “Reduzindo danos”.

Também foram ampliadas e qualificadas as menções honrosas. Ao invés de uma, foram concedidasduas menções, com a novidade de uma recompensa de R$ 1 mil, antes inexistente. Os vencedores foram a reportagem “Filhos do crack”, da revista Crescer, assinada por Maria Clara Vieira, com fotos de Guilherme Zauith; e “Mais um mês e eu teria morrido”, da edição brasileira do El País, da autoria de Talita Bedinelli.

“O debate sobre drogas está se qualificando e ampliando. Vimos a necessidade de aumentar os premiados”, diz a coordenadora do CESeC e da iniciativa, a socióloga Julita Lemgruber. “Em comparação aos inscritos ano passado, desta vez tivemos mais matérias reflexivas e contextualizadas”, conta a jornalista e também organizadora  Anabela Paiva.

A seleção

Criado em 2014  como oprimeiro prêmio do Brasil dedicado ao tema das drogas, o Prêmio Gilberto Velho recebeu este ano 50 inscrições, de 31 veículos, abrangendo 8  estados brasileiros. No dia 30 de outubro, o júri se reuniu na sede da Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, para escolher os vencedores.

Participaram da votação o jornalista Bruno Torturra; a coordenadora do curso de jornalista da UFRJ, Cristiane Costa; a professora de Direito Penal Luciana Boiteux; o editor-chefe do RJ TV, da TV Globo, Marcelo Moreira; o sociólogo e pesquisador do Cebrap Mauricio Fiore e a cientista social e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Silvia Ramos.  A também coordenadora do CESeC Julita Lemgruber foi a presidente do júri. O antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares não pôde comparecer.

O júri avaliou o trabalho investigativo,  a abrangência e originalidade das reportagens na abordagem das drogas e seus impactos sobre a sociedade. O especial sobre a legalização da maconha do Zero Hora foi destacado pela amplitude, o  equilíbrio obtido pela inclusão de muitos pontos de vista e a qualidade da apresentação na internet. “O prêmio é o coroamento de um trabalho de quase 30 dias de entrevistas, produção gráfica e texto. Entrevistamos médicos, advogados, ativistas e chegamos à conclusão de que o tema da legalização está longe de ser consenso. Tem opiniões divergentes e o papel do jornal é estimular esse debate”, disse Leandro Maciel, editor do diário sulista.

O depoimento do jornal Maré de Notícias foi selecionado por apresentar, com rara profundidade e ausência de preconceitos ou paternalismo, o ponto de vista de um usuário de crack, permitindo ao leitor ter contato com conflitos, escolhas e perspectivas que moldaram a trajetória deste indivíduo. “Eu o entrevistei em três dias diferentes e em diferentes situações: antes de consumir a droga, durante o consumo e após”, contou a repórter. Rosilene disse que o prêmio é um estímulo para seguir com o projeto jornalístico na comunidade  “e particularmente abordando esse tema, que é uma realidade na Maré”.

Já as reportagens da jornalista Dandara Tinoco publicadas em O Globo foram selecionadas como um conjunto representativo do esforço de um profissional e seu veículo de investigar com frequência e qualidade as  políticas e o contexto das  drogas ilícitas no Brasil. Em viagem a trabalho, a jornalista não pôde comparecer à premiação.

Na menção honrosa para a Crescer, foi citada a importância de debater políticas para os filhos de dependentes químicos, retirados da guarda das mães biológicas ou – o que a matéria ressalta ser minoria — abandonados por elas. “Ao ver pessoas consumindo drogas na rua, ficava pensando o que aconteceria com os filhos delas. Precisamos continuar a falar dessa situação e o prêmio é um incentivo para isso”, observou Maria Clara Vieira.

A reportagem do El Paísse destacou por abordar, a partir de uma história impactante, o investimento federal nas comunidades terapêuticas para dependentes químicos, cujas práticas tem sido questionadas por profissionais de saúde. “A partir de uma história de uma pessoa que tinha sofrido abusos em um centro, conseguimos pautar uma política pública, o que nem sempre é fácil em um jornal”, ressaltou a autoraTalitaBedinelli.

O Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas tem apoio da Open SocietyFoundations e é uma  parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). O Prêmio homenageia o antropólogo Gilberto Velho (1945-2012), pioneiro da Antropologia Social, decano da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos primeiros a propor a discussão sobre a regulação das drogas no Brasil.

As reportagens vencedoras poderão ser consultadas no site www.premiogilbertovelho.com.br.

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