Chegança – Novo polo das Quebradas na Rocinha

A Universidade das Quebradas chegou à Rocinha! Na última semana, os quebradeiros veteranos foram conhecer o novo polo do projeto e dar as boas vindas aos novos integrantes. Durante seis meses, a Biblioteca Parque da Rocinha receberá, toda quinta-feira, aula e debate para os quebradeiros da comunidade.

Na inauguração, o escritor paraibano Braulio Tavares abriu a temporada com uma palestra sobre a palavra e a comunicação. Apesar de sempre associados, os dois conceitos não são dependentes. Mais do que letras e frases, a conversa entre duas pessoas é feita pelo pensamento e as maneiras que encontramos para expressá-lo. De acordo com o escritor, a comunicação por telepatia tem fundamento.

Segundo Braulio, um exemplo claro de entendimento entre pessoas sem o uso da palavra é uma conversa entre dois indivíduos que não falam a mesma língua. O tom de voz, a entonação, os gestos, as expressões faciais e olhar são capazes de dizer muito mais do que as letras. O contexto e os fatores comuns a todos, como o corpo, vão além das regras ortográficas aprendidas em cada país.

Outras formas de comunicação também inventadas pelo homem são tão eficientes quanto a palavra. A música e a imagem, por exemplo, despertam memórias e envolvem seus ouvintes e observadores com rapidez e profundidade. A compreensão de uma situação acontece mais emocionalmente, já que conseguimos compreender que um artista canta a perda de um grande amor mesmo se a letra da canção for num idioma desconhecido pelo ritmo, a melodia e vibração da voz do intérprete.

Essas associações da palavra com outros elementos explica a facilidade com que associamos a leitura de um livro à fase que vivemos em nossas vidas. De repente, um conto de Machado de Assis nos remete ao lugar onde ele foi lido; uma agência bancária, exemplificou Braulio Tavares.

No entanto, ainda que sejam capazes de representar sensações, pensamentos e ações, as palavras não são definidoras ou definitivas. O que é escrito no dicionário não é sagrado, foi criado pelo homem e pode ser modificado por ele. A história, a cultura e a estrutura de uma sociedade mudam constantemente, portanto a palavra também precisa mudar. É ela que se adapta às nossas necessidades e não o contrário.

Para encerrar, Braulio aconselhou os novos quebradeiros a escreverem, a se darem essa chance. Segundo ele, cada um possui algo único e interessante para contar, já que certas coisas só ele, você ou eu vivenciamos. O segredo é colocar a si mesmo no texto. Quando uma pessoa escreve, precisa expressar quem é, quais são seus valores, suas histórias, sua família. Somos o que nos cerca, o que gostamos e o que aprendemos.

A iniciação dos quebradeiros da Rocinha terminou com a declaração, em apenas uma palavra, de veteranos e novatos sobre o que o projeto representa ou poderá representar. Depois de uma aula sobre como as palavras podem ser úteis e também restritivas, talvez o conjunto das que foram citadas possa caracterizar algumas das múltiplas capacidades do projeto. Parceria, oportunidade, construção, conhecimento, troca, busca, telepatia, experiência, mistura e desconstrução. Isso é Universidade das Quebradas! E ainda pode ser muito mais.

 

Por Júlia de Marins (Bolsista PIBEX/ECO) – 11 de março de 2013
Fotos: Toinho Castro

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3 comentários

  1. Maria Consuêlo dos Santos Ribeiro
    Maria Consuêlo dos Santos Ribeiro 21 de março de 2013 at 11:55 |

    É motivo de grande alegria para mim fazer parte de um momento tão privilegiado para a Rocinha, comunidade que me recebeu, a qual abracei como sendo o meu novo lar!
    O contato com o escritor Bráulio Tavares foi muito importante. Ele explicou enfaticamente sobre a literatura, que, acredita ser a extensão da palavra, que vem como reforço à comunicação, que é uma forma de “telepatia, ficção.” Bráulio entende que, livro é ponto de referência para a vida real, é parte do universo.
    Imagem, corpo, sons, movimentos…Tudo tem a ver com a palavra.
    Músicas são entendidas de acordo com as nossa vivências, ações, emoções…Músicas vão além das palavras! Todo casal tem a sua música, a sua lembrança emocional.
    Cinema é ação física, gestual; há a linguagem das câmeras. Poucas palavras faladas. Citou Alfred Hitchkock.
    Bráulio comentou as diferenças citadas pelas feministas: o homem é sempre supervalorizado; a mulher é sempre “da vida, a frágil…”.
    Houve tudo isso e muito mais. Foi ótimo!

    Ele acredita que o hábito de leitura do brasileiro é muito fragmentado, pois “lê quando dá tempo”: no quarto, na sala, nas filas de banco, do metrô, nos ônibus etc.

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  2. Aderaldo Luciano
    Aderaldo Luciano 13 de março de 2013 at 9:30 |

    Braulio Tavares foi nosso ídolo na década de 70 quando, com uma vasta cabeleira, subia aos palcos paraibanos cantando e declamando sua obra. Todos os aspirantes a alguma coisa em literatura e música de minha geração tiveram em Braulio um modelo. As Quebradas, que considero minha casa, ganha com ele e ele com as Quebradas. Rocinha, Rocinha, aí vamos nós!

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  3. Jussara Santos
    Jussara Santos 12 de março de 2013 at 20:24 |

    Mais uma vez senti um grande prazer em participar na abertura de mais uma unidade da UQ. A Rocinha foi sucesso total. E fiquei orgulhosa de encontrar parceiros de outros projetos que já tive o prazer de participar, dando o exemplo do Firmino (tem um ponto de cultura) e nos conhecemos em 2005, no Forum Social Mundial, que aconteceu em Porto Alegre. Rocinha promete muito saber!!!

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