5 comentários

  1. Marco Aurélio Valente
    Marco Aurélio Valente 23 de março de 2015 at 17:24 |

    O que não se comentou nessa matéria foi a respeito da “genética” dos movimentos negros no Brasil pós abolição. No início da república surgiram grupos que desejavam o retorno da monarquia como por exemplo a “Guarda Negra”, que desejava o retorno da Princesa Isabel; não ficaram satisfeitos com o descaso republicano. A ordem republicana era de manter os negros na marginalidade (isso incluía o analfabetismo) e mudar a história do Brasil fazendo com que aqueles que desejavam o retorno da monarquia mudassem de ideia.

    Na segunda instância, durante a década de 1930 (uma outra geração), já se tinha outras influências sobre os movimentos sociais. Agregou-se as ideologias políticas e, no momento, foram as socialistas comunistas e as ideias fascistas que estavam em evidência. Os Movimentos negros tornaram-se grupos politizados, em especial a FNB. A Frente Negra Brasileira tornou-se um partido radical e de ideias confusas. Seu líder, Arlindo Veiga dos Santos, fazia discursos com elogios ao fascismo e ao nazismo e ao mesmo tempo se dizia monarquista. De toda a forma, a FNB foi a mais importante organização de sua época. (“Morte a Ré-publica – Frente Negra Brasileira: Monarquismo Paulistano do Século XX . Bárbara de Velasco: mestre em História pela Universidade de Brasília e especialista em cultura africana pela Universidade Federal de Goias)

    Mas a influência fascista, nazista e comunista não foi descartada. Os movimentos tornaram-se tão radicais que a proposta de projeto de lei antidiscriminatório do Congresso Nacional do Negro de 1944, encabeçado por Abdias do Nascimento, do Teatro Experimental do Negro, foi rejeitado até pelo Partido Comunista Brasileiro por “restringir o conceito amplo da democracia” e segregar a classe dos trabalhadores, o que demonstra choque de interesses. (“O Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos históricos” – Petrônio Domingues: Doutor em História pela USP e professor da Universidade do Oeste do Paraná).

    No processo de redemocratização do Brasil do início dos anos de 1980 ressurge o pan africanismo que idealizado por estudantes dos países africanos de colonização inglesa e nos EUA do final do século XIX e início do século XX com a ideia de unificação dos países africanos. Esse movimento no Brasil acabou por incentivar o racismo intrínseco, isto é, “sustenta que o simples fato de ser de uma mesma raça é razão suficiente para preferir uma pessoa a outra. Então esse tipo de racismo estabelece diferenças morais entre os membros das diferentes raças, por acreditarem que cada raça tem um status moral diferente, independente das características partilhadas por seus membros”. Esse pensamento trouxe a aversão aos miscigenados (como se os de pele mais escura no Brasil não fossem). Na África não se consegue unir seus povos por causa do racismo intrínseco, isto é, os negros de outras nações historicamente não se identificam como moralmente iguais. Cada nação é uma raça distinta. O pan africanismo no Brasil teve resultado de segregação e que gerou o racismo intrínseco, isto é, grupos de negros brasileiros adeptos a este pensamento se fecharam rejeitando os miscigenados e os brancos. Com isso, afirmo que o pan africaismo é uma antiga utopia.

    Recentemente o sistema de cotas causou polêmica na sociedade. O idealizadores se assustaram com os resultados do sistema original das cotas para afro descendentes. Muitos que não aparentavam ser negros e provaram ser afro descendentes causaram grande confusão na cabeça de muita gente. Depararam-se com a mais linda realidade que o Brasil tem: seu próprio povo brasileiríssimo. A partir disso mudaram para sistema de cotas para jovens de baixa renda.

    O sistema de cotas para afrodescendentes tem com embrião as ideias pan africanas de William Edward Du Bois, primeiro negro a se formar na Universidade de Harvard, uma universidade exclusivamente de brancos. Du Bois dizia que “a elite negra salvará os demais” (negros). Será? De toda a forma não se pode negar que esse sistema é benéfico para os jovens menos favorecidos, embora eu ache que uma casa não se constrói a partir do telhado. Mais para mim é fato de que o racismo se vence com a educação de qualidade. Essa educação pública de qualidade que dará acesso aos jovens brasileiros, independente da cor da pele, às melhores universidades do Brasil e do mundo.

    Hoje os movimentos negros estão associados a política. A política atual se inclina para o socialismo marxista. Pode-se observar militâncias radicais que exalam autoritarismo, principalmente dentro das universidades públicas – comentem o mesmo erro do passado – que invadem salas de aulas e impões debates sobre igualdade racial sem a autorização dos alunos e da professora presente. Da mesma forma gente do governo propões um fundo solidário aos negros brasileiros alegando que temos que nos desculpar com os brasileiros negros, como se a sociedade de hoje fosse culpada pelos erros do passado. Equívocos e mais equívocos e tornam os movimentos patéticos.

    Não somos africanos, não somos Europeus, nem de qualquer outro povo do planeta. Somos brasileiros: uma nova etnia, uma nova raça, independente da cor da pele. O pesamento deveria ser esse. Buscar a identidade nacional como brasileiros e não como afro brasileiros ou luso brasileiros e etc.. Assumir a cultura brasileira e trazer para cada um de nós todas as matrizes que constituíram essa nação. Isso não desmerecera nenhuma delas, muito pelo contrário. A negritude está na alma e não na cor da pele ou na roupa que se veste. Esse é o primeiro passo para liquidar com o racismo, ou, pelo menos minimizá-lo.

    O segundo passo já citei, que a educação pública de alta qualidade estritamente para os de classe mais baixa, para dar acesso igual à todos nas universidades e no mercado de trabalho.

    Terceiro passo é a diminuição da pobreza com políticas sociais verdadeiras. Essa redução da pobreza está diretamente relacionada com a qualidade da educação pública, o que inclui um sistema pedagógico adaptado a atual realidade. Para a diminuição da pobreza se inclui, também, a assistência do governo nos rigores da lei, isto é, com fiscalização dos gastos do governo com essa política social e com exigências e punições para as famílias que a descumprirem.

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  2. Sandra Martins
    Sandra Martins 13 de agosto de 2014 at 20:46 |

    Fico imensamente feliz pela Universidade das Quebradas levar assuntos tão caros à nossa sociedade para a sala de aula.
    A mídia – das grandes e conservadoras até as comunitárias/alternativas – não quer entender sobre a agenda política do Movimento Negro, quiçá apresentar sua história de lutas, de conquistas e de acertos e não somente os erros.
    A Folha de São Paulo, por exemplo, está com uma cara campanha contra as cotas no serviço público, na realidade ela é contra a qualquer tipo de política afirmativa que busque a dignidade dos oprimidos. Estamos em ano eleitoral e esta campanha cai como uma luva. Só falta a FSP gritar para que preto não vote em preto, e que a população de maneira geral deslegitime qualquer discussão a respeito como se fosse algo subversivo. A ideia é a eterna manutenção do apartheid brasileiro.
    Quando o professor Amilcar fala deste movimento social que é o mais antigo do Brasil, ele mostra que em 1931 o negro estava terrivelmente apartado, tão distanciado da pauta política que precisou se agrupar para poder construir uma identidade, mesmo que fosse para ser aceito no mundo branco, o chamado assimilacionismo.
    Nossas histórias têm que aparecer, não podemos permitir o apagamento de nossos fazeres.
    Realmente fico feliz com o belo trabalho a Universidade das Quebradas.
    Bacana, muito bacana.

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  3. luciana Andreia
    luciana Andreia 25 de março de 2014 at 12:51 |

    SABER QUE O NOSSO PAIS TEVE INFLUENCIA NOS ESTADOS UNIDOS DA AMERICA FOI DE GRANDE SURPRESA PARA MINHA PESSOA , ATE PORQUE TEMOS O PADRÃO CULTURAL DE COPIARMOS TUDO DE FORA E ME SENTI FELIZ EM SABER QUE NÓS FOMOS REFERENCIA PARA ELES

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  4. Rogéria Reis
    Rogéria Reis 27 de fevereiro de 2014 at 23:54 |

    Eis uma das grandes contribuições da história:
    Trazer à luz , fatos, que por tanto tempo foram negados.
    Quando ainda nem se discutia o racismo no Brasil, tive o prazer de conhecer a Fátima, uma mulher branca, que tinha grande apreço por sua boneca “nega Fulô”. Daquelas de pernas compridas usadas para enfeitar a sua parede.
    Ela sempre me emprestava a “Nega Fulô”, mas, não sem antes me recomendar muito cuidado com a mesma.
    Rosemary Gonçalves, grande amiga e ativista do movimento negro, formada em Administração de Empresas com especialização em terceiro setor, me apresentou Franz Fanon, Malcon X , Solano Trindade, Milton Santos, Conceição Evaristo, Abdias do Nascimento e outros nomes.
    Parabéns ao Movimento Negro sobre o qual já escrevi uma vez reconhecendo sua grande capacidade de organização dentro dos preceitos da democracia. Formaram centros de desenvolvimento de políticas públicas, centros de resgate da história, cultura e identidade negra, os centros de divulgação da cultura negra, batalharam e tornaram realidade, o acesso do negro à educação superior, desenvolveram as frentes de combate contra o racismo, souberam eleger lideranças políticas que foram fiéis à causa negra, as suas necessidades gritantes.
    Sigamos rumo aos cem anos do Abdias Nascimento, com muito orgulho do Movimento negro brasileiro.

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  5. Fabiana
    Fabiana 27 de fevereiro de 2014 at 21:17 |

    Confesso ter saído dessa aula chocada e impactada ao mesmo tempo, pois me perguntava em muitos momentos: como assim??? Como muitos aqui não sabem sobre os movimentos negros q tivemos dentro da nossa história? E foi uma coisa q verdadeiramente me deixou triste, pois somos produtos de uma educação que passa por cima desses conhecimentos e as pessoas que alegam não conhecer não são culpadas e sim o sistema, que continua produzindo desconhecimento dos que foram a base para as conquistas que hoje comemoramos. Mas a pergunta, que infelizmente não tive tempo para fazer era a seguinte: como lutar contra esse racismo que diz não para um professor como Kabenguele Munanga e faz questão de apagar da memória quem foi Milton Santos. Ai eu entendo o motivo de tantos desconhecerem os nossos heróis negros e suas lutas e conquistas.

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