Pós-aula MAR 14: Arte e Psicanálise – Numa Ciro

por Rafaela Nogueira – Bolsista PIBEX PACC\UFRJ

Em mais um encontro com a coordenadora da UQ, psicanalista e atriz, Numa Ciro, tivemos um desdobramento (continuidade) da primeira aula, sobre a Psicanálise e as Artes, cujo tema abre para novos encontros. O debate, para Numa, trata-se de falar da arte pelo viés da psicanálise. E com uma prerrogativa: A psicanálise poderia ser vista como arte?

Sabe-se que a princípio a ciência não tolerou a psicanálise, pois era uma vertente que contrariava seus métodos próprios de análise. Por isso a psicanálise é marginal, afirma Numa. A psicanálise foi descoberta a partir de um não saber. O que a ciência não considerava um sintoma anatômico, portanto, estava no campo da arte ou da loucura. Segundo Numa, é impossível definir a arte, mas reconhecemos quando ela acontece, pois é algo diferente — “O olho vira outra coisa, é a escola do olhar” —, simbólico. E sem a figura do maluco e sua loucura não conheceríamos muitos processos humanos.

Sobretudo, a fala nos inventou. Tudo a fala inventou. Com a fala recalcamos o instinto para dar lugar às pulsões — passamos, por exemplo, da fome para o apetite e do fastio à culinária. Freud constata em seus estudos que o instinto é preciso e a pulsão é caótica. Reconheceu que havia um sujeito dividido (indivíduo vs dividido) que transformou suas necessidades em desejos. Em seu livro, O mal-estar da civilização, Freud discute as dificuldades do sujeito no seu processo de inserção na instituição social, e como é difícil para esse sujeito recalcar seus desejos no modelo de civilização. Só há leis e proibições porque há desejo e vontade de saciá-lo. O mal-estar é o limite que nos dão no espaço social na repreensão dos nossos desejos.

O que teria um artista de diferente dos outros nessa civilização? A criança é a grande inventora de jogos fantasiosos. Ela cria a brincadeira a partir do real. O extraordinário é que a criança sabe exatamente que ela está vivendo numa ficção e tem prazer com esses jogos. Assim descobre o mundo dos adultos, fantasiando-o. Quando a criança cresce, deixa de contar suas fantasias para escondê-las, e tende a crer que no mundo adulto o real prevalece e os desejos de antes são infantis. Segundo Numa, devaneios, sonhos e fantasias são realizações dos desejos.

Liberar os desejos depende muito de cada um, de questões que envolvem a sua história. Mas não se sabe por que alguém se torna artista. As fantasias são plásticas e vão sofrendo mutações, acompanhando as transformações do sujeito em seu tempo. O inconsciente produz um material virtual de imagens que se apresentam em forma de sonhos e fantasias. Enquanto a fantasia fica no limite da não realização, o desejo é realizável. Nesse ponto, a fantasia tem limites, pois não pode ser concretizada como ação do real, ou seja, o assassinato é um ato que ultrapassa os limites da fantasia. Entretanto, as fantasias podem ser sintomáticas quando se tornam neuroses. Nesse caso, se torna mais poderosa que o desejo, ao contrário de ser uma brincadeira e uma zona de criação lúdica. Para Numa, vai depender de cada um se sentir à vontade para expor ou não suas fantasias, seja através da fala comum ou da expressão artística.

Não é desumana a pulsão de morte. A história de vida de cada um marca o seu inconsciente. Há uma estrutura psíquica que propicia a angústia, a neurose e a loucura. A diversidade humana tem a ver com a criatividade do próprio real. A partir do real é que se inventa a ficção, a fantasia. Para chegar à conclusão de que: Não há limites para a arte. Sendo assim, diz Numa, “não existe o “normal”, todos participam do mal-estar da civilização (…). Freud quebrou com os ditames médicos (…) para a ciência os estudos de Freud eram ficção científica”.

A literatura para Freud foi uma das chaves para desencadear os seus estudos, pois a psicanálise já estava contida nos textos literários. Foi uma sacada de Freud escutar o que aqueles narradores e personagens tinham a dizer sobre questões psicológicas. Depois do modernismo, as obras de arte passam a propor uma problemática do inconsciente e não mais representativas. O mais notável deles, o escritor James Joyce, quebra com o romance neurótico, linear e dramático; e passa a contar sobre um sujeito dividido e não sobre um indivíduo social representativo; rompe com o modelo de narrativa romântica do século XIX. O surrealismo também rompeu com a linearidade desse romance dotado de mecanismos de limites narrativos.

Para terminar, Numa sinalizou que o inconsciente é uma válvula que está em constante movimento de abrir e fechar, por onde escapam os lapsos e os sonhos. Mas é uma área recalcada, sem acesso. “Toda obra de arte é substituta do brinquedo infantil”.

Referências

SIGMUND, Freud. O mal-estar da civilização.

JOYCE, James. Ulysses.

SÓFOCLES. Édipo Rei.

Conheça a trajetória de Numa Ciro disponível em: http://www.agentesefala.com.br/artista/numa-ciro.php

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