4 comentários

  1. Sandra Portugal
    Sandra Portugal 8 de outubro de 2012 at 10:28 |

    Lembro-me de que, quando garota, adorava ler os livros do meu pai. Um deles era uma peça de teatro chamada A raposa e as uvas, de Guilherme Figueiredo, que eu li pela primeira vez aos 12 anos. Corria o ano de 64, e a leitura desse livro me ajudava a refletir sobre o que acontecia à minha volta. Explico: o texto falava, principalmente, do sonho da liberdade.

    A peça contava a história de Xantós, um rico patrício grego, e seu escravo Esopo, que, ao que se sabe, viveu na Grécia há aproximadamente 3.000 anos e ficou célebre por suas fábulas. Em um dos trechos mais famosos dessa peça, Xantós recebia em sua casa seu amigo Agnostos, que era um filósofo. Querendo proporcionar uma boa refeição ao seu amigo, Xantós mandou Esopo ir ao mercado e comprar o que de melhor houvesse para servir ao convidado. Algum tempo depois, Esopo voltou do mercado e colocou sobre a mesa um prato de língua. O patrão, surpreso, pediu que ele lhe explicasse por que, entre tantas comidas finas, trouxera justamente aquela. O escravo, então, justificou sua escolha, dizendo:

    “O que há de melhor do que a língua, senhor? A língua é que nos une a todos, quando falamos. Sem a língua não poderíamos nos entender. A língua é a chave das ciências, o órgão da verdade e da razão. Graças à língua é que se constroem as cidades, graças à língua podemos dizer o nosso amor. A língua é o órgão do carinho, da ternura, do amor, da compreensão. É a língua que torna eterno os versos dos grandes poetas, as ideias dos grandes escritores. Com a língua se ensina, se persuade, se instrui, se reza, se explica, se canta, se descreve, se elogia, se demonstra, se afirma. Com a língua dizemos ‘mãe’, ‘querida’ e ‘Deus’. Com a língua dizemos ‘sim’. Com a língua dizemos ‘eu te amo!”

    E acrescentou: “Toda a Grécia foi feita com a língua, a língua de belos gregos falando para a eternidade.”

    Xantós ficou entusiasmado com a resposta e ordenou que voltasse ao mercado, agora para trazer a pior comida. Depois de algum tempo, Esopo estava de volta, trazendo um prato de… língua! Xantós, indignado, exigiu que ele se explicasse, caso contrário seria açoitado. Esopo, com serenidade, respondeu:

    “A língua, senhor, é o que há de pior no mundo. É a fonte de todas as intrigas, o início de todos os processos, a mãe de todas as discussões. É a língua que separa a humanidade, que divide os povos. É a língua que usam os maus políticos quando querem nos enganar com suas falsas promessas. É a língua que usam os vigaristas quando querem trapacear. A língua é o órgão da mentira, da discórdia, dos desentendimentos, das guerras, da exploração. É a língua que mente, que esconde, que engana, que explora, que blasfema, que insulta, que se acovarda, que mendiga, que xinga, que bajula, que destrói, que calunia, que vende, que seduz, que corrompe. Com a língua, dizemos ‘morre’, ‘canalha’ e ‘demônio”. Com a língua dizemos ‘não’. Com a língua dizemos ‘eu te odeio”!

    E concluiu dizendo:

    “Com a língua a Grécia vai tumultuar os pobres cérebros humanos para toda a eternidade. Aí está, Xantós, por que a língua é a pior de todas as coisas!”

    O tempo foi passando. Somente no fim dos anos 70 eu conheci a história que o professor Renato nos contou na sua aula. Percebi, então, que tudo aquilo que eu pensava, conhecia e pensava que conhecia tinha sido formatado por mim numa perspectiva ocidental, e, portanto, merecia ser revisitado.

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  2. Petter MC
    Petter MC 3 de outubro de 2012 at 15:36 |

    Aula muito maneira. É superinteressante ouvir sobre a criação do ponto de um ponto de vista que não seja cristão ocidental.

    Em Nova Iguaçu há um museu chamado “Odé Gbomi” que é referência em pesquisa sobre a cultura Yorubá. Acredito que o professor Renato Nogueira conheça esse espaço.

    Uma saída cultural até lá seria muito enriquecedor para todos os quebradeiros e quebradeiras.

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  3. Bea Meira
    Bea Meira 3 de outubro de 2012 at 11:43 |

    Aula interessantíssima do Renato Nogueira. Acho que minha pergunta não foi bem colocada.Me chama atenção o papel protagonista da mulher na mitologia Yorubá, em que as deusas não se bastavam com a maternidade e queriam também o conhecimento do Ifá.

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  4. Jussara Santos
    Jussara Santos 3 de outubro de 2012 at 10:49 |

    Linda colocação. Sim, existência no “tempo da linha”. Aos membros de Yurùbá, com suas vidas nos mostrando a existência e cultura da vida de viver. Foi emocionante a aula do Renato. Ele é uma personalidade impar. Ju Potiguar com alma africana.

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