Território da linguagem, pós-aula

A narrativa é a desconstrução do imaginário de uma representação distante. O narrador é aquele ser entre um mestre e um sábio, que possibilita acesso à história. Narrar uma história é também um modo de afirmação da própria cultura. Por isso existe uma dicotomia entre os contadores de história, entre aqueles que contam a própria cultura, a própria tradição, e aqueles que vêm de longe e contam casos e histórias diferentes daquela realidade em que estão momentaneamente inseridos.

A professora Sandra Portugal e José Henrique propuseram uma atividade, dividindo a turma em cinco grupos. Cada grupo recebeu uma história completamente diferente, com o objetivo de narrá-la, de contá-la da melhor maneira possível para aqueles que ainda não tinham lido.

“O narrador”, de Walter Benjamin, foi o texto que orientou o primeiro Território Linguagem Abaixo. Segue um trecho que mostra a importância desse contador de histórias:

“Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer a um acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira. O narrador é o homem que poderia deixar a luz tênue de sua narração consumir completamente a mecha de sua vida.”

Veja aqui os textos usados na aula:

 

Bárbara Reis – Bolsista Pibex PACC/UFRJ

7 comentários

  1. Tetsuo Takita
    Tetsuo Takita 1 de novembro de 2013 at 17:43 |

    Na época desta aula tive que me aisentar para SP, mas com a csbeça nos Quebradeiros… Até prôpus no grupo fechado do Facebook, para a prof. Beá de a gente visitsr o Museu de Cultura Negra que fica no Parque do Ibirapuera, e postei algumas fotos, lá pude sentir ests linguagem viva e rica, inclusive a imagem que está ilustrando est post é semelhante às inúmeras que estão dispostas no acervo permanente do museu. Já tinha visto algumas obras sobre o tema, mas ver um espaço maravilhoso como aquele cheio dessa energia é uma experiência avassaladora e nos enche de alegria de fazer parte desse movimento em prol da rica emaravilhosa linguagem e cultura tão combatida e perseguida mas que está cada vez mais rica na linguagem que pulsa qual tambor em nós o coração quebradeiro, que não tem cor maz se tiver é da cor dos nossos ancestrais planetários, negro!

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  2. Denise Lima
    Denise Lima 9 de setembro de 2013 at 21:05 |

    DIÁSPORAS CÍCLICAS

    Meu bonde partiu de Angola, acorrentado!
    Chegou em Pernambuco, suou na cana,
    fugiu para um quilombo em Minas Gerais.
    Passou fome, frio, sede, adoeceu.
    Ouviu falar da princesa e da liberdade, duvidou e não errou!
    Quem liberta e coloca na rua, sem roupa ou colchão?
    Viu chegar outro bonde, desta vez de brancos com falas engraçadas e
    suas ferramentas de campo!
    Perdemos o chão, invadiram o quilombo, devastaram tudo, fundaram latifúndio.
    Partimos de novo, para o Rio de Janeiro, uma nova senzala
    chamada quarto de empregada, de onde fugíamos, uma vez por mês para os barracos ou cortiços! Desta vez, passamos fome de desejos.
    O prato cheio, na mesa deles, não vai nos servir, sirvamos-nos de restos!
    Tudo é pouco: amor, vestimenta, salário. Muitos, só os filhos, outras bocas famintas.
    O tempo passa e novo sonho de liberdade nos dão, chamam-na de escola.
    Mas, nossa cor deixa-nos novamente na senzala: do medo, do racismo, do bullying.
    Precisamos provar que podemos,
    precisamos provar que merecemos,
    precisamos provar que nos importamos.
    Agora, é o tempo que nos cerceia, nos pune, nos castra.
    Novas tecnologias inalcançáveis, novos mundos híbridos, não nos convidaram para a globalização. Então, quedemo-nos deserto, à espera de nômades!

    DENISE LIMA

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  3. Tita Clemente
    Tita Clemente 9 de setembro de 2013 at 9:03 |

    A leitura destes textos provocou em mim uma sensação de “experiência profunda” (com o perdão da pieguice),
    do tipo experimentando o melhor da literatura.
    logo no começo da aula leio, que a narrativa está em vias de extinção e que “são cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente” uma linda verdade.
    Essa afirmação, muito instigante a meu ver, remete o leitor à análise da forma como nos relacionamos com a informação nos dias de hoje, ou seja, algo que de certa forma pode ser resumido nas expressões “comunicação de massa” e “sociedade da informação”.
    Diante das peculiaridades da vida de Benjamin e da estatura da obra que produziu, procuro imaginar como ele se posicionaria diante das questões que se apresentam com o advento e o desenvolvimento da Internet.
    Em relação ás narrativas que desenvolvemos na aula, achei o máximo também. Porque incluiu todas as variadades de demostrar o quanto a narrativa ainda é rica e instigante. Obrigado por poder fazer parte disso tudo.

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  4. Rogéria Reis
    Rogéria Reis 7 de setembro de 2013 at 0:42 |

    Quão feliz fiquei ao saber que um fragmento do texto que publiquei no comentário da pós-aula passada foi destacado.
    Foi muito interessante poder auxiliar e da forma que mais gosto, que é escrevendo.
    Confesso que na entrevista para admissão, quando fui questionada sobre que tipo de contribuição poderia fornecer à UQ, respondi alguma coisa relacionada ao trabalho que realizo com poesias, mas no íntimo, pensei: com minhas insignificâncias…
    Me lembrei naquele momento do poeta Manoel de Barros, que por sinal será um dos indicados para concorrer ao Nobel de literatura.
    Bem… A imagem do Zeus e do Xangô projetadas me conduziram novamente à reflexão sobre o papel da narrativa e da arte na construção de um imaginário. Pesquisei sobre MIMESIS e a DIEGESIS, dois conceitos gregos que dizem respeito as formas de discurso.
    No primeiro, o narrador se utiliza da “persona” para contar a história, e revestido desta se depara com uma possibilidade maior de criar, imaginar, de misturar a realidade com a ficção.
    O segundo busca uma aproximação maior com a realidade.
    A MIMESIS, utilizada pela poética e a DIEGESIS pela retórica.
    A MIMESIS Aplicada à comédia e a DIEGESIS, à tragédia.
    Para Lacan: “Não há nenhuma realidade pré-discursiva. Cada realidade se funda e se define por um discurso”.
    Mas pensando nas imagens que são apenas uma representação do que se imagina de Zeus e de Xangô, feita por um artista, foi que me lembrei do Jesus Cristo branco de olhos azuis que foi plantado por longo tempo no nosso imaginário e que se opõe à narrativa do profeta Isaías, contida na Bíblia dos cristãos, no Livro de mesmo nome, no seu capítulo 53:3:

    “Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum.”

    Essa passagem é muito interessante e nela pinço elementos como a exclusão, opressão, discriminação, negação e anulação – temáticas tão debatidas nos nossos dias.

    Para os cristãos diz respeito a uma profecia que traça um perfil que serveria para verificação da identidade messiãnica do Nazareno.

    Aconselho a quem for de interesse uma leitura de todo capítulo para um obtenção de um certo entendimento da cultura cristã.

    Algum tempo depois Jesus Cristo chega ao mundo e com sua oralidade, seu discurso e também com a sua própria vida, narra a sua história.

    (Quando digo vida, penso em um corpo que se movimenta, ocupando lugar no tempo e no espaço, com todas as suas significâncias – “o pão vivo que desceu dos céus”.)

    Seu discurso (verbo, narrartiva oral) e seu exemplo (praxis), comoveu e arrastou multidões.

    Formou-se o mito e a com a sua morte martirizada, surge a mística.

    Jesus apresentou um discurso humanista, sobretudo direcionado aos destituídos do bem e dos bens da vida; dirigido a um povo oprimido pelo domínio do império romano.

    Um discurso que até hoje faz com que um número expressivo de ouvintes se identifiquem ou não com o Cristo.

    Desenhou-se a “identidade” cristã calcada na pessoa de Jesus cristo.

    A união de cristãos deu origem à igreja que teria como missão a transmissão da tradição cristã ao maior número de pessoas possível e numa visão mais expansionista, após a conversão do apóstolo Paulo.

    Como disse anteriormente além da narrativa pelo próprio Jesus da sua história outros assim também fizeram e ainda o fazem, cada qual à sua maneira, sob a sua perspectiva.

    Cogita-se muitas coisas sobre Jesus mas um fato que não se deve negar diz respeito ao seu discurso que era puro em amor e respeito ao próximo.

    Eu me identifico em muito com o discurso de jesus Cristo.

    Rogéria Reis

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  5. Sandra Portugal
    Sandra Portugal 6 de setembro de 2013 at 16:54 |

    Cada um dos 16 odus compreende um certo número de narrativas que podem explicar a personalidade de uma pessoa, decifrar o seu destino e orientá-la na tomada de decisões em sua vida. Cada narrativa é, assim, um “caminho” mostrado pelo odu, que se manifesta por meio do opelê-ifá ou dos búzios.

    Vale lembrar que Obará está associado o orixá Xangô.

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    1. Sandra Portugal
      Sandra Portugal 6 de setembro de 2013 at 16:55 |

      Corrigindo: Vale lembrar que Obará está associado ao orixá Xangô.

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  6. Fabio Augusto
    Fabio Augusto 6 de setembro de 2013 at 13:55 |

    Tem sido assim toda terça.
    Muita informação e conhecimento,muitas idéias e ideais,
    muitas respostas e descobrimentos…
    Na ultima aula não foi diferente,com habilidade e magia,
    Sandra Portugal nos mostrou formas múltiplas de narrativas e histórias interessantes que confesso,me prenderam na leitura essa semana toda.
    Não só o texto de Walter Benjamin mas o próprio Nicolay Leskov com pitadas de Tolstói e Dostoiévski,nos mostram um narrador que parece estar presente entre nós durante a leitura ,mas que na verdade, quanto mais distante ele se coloca, melhor e mais detalhadamente seu texto aparece.
    Quanto a atividade em grupo, publiquei num outro post um resumo de tudo que ouvi e estudei e vou postar de novo por aqui….
    Muito mais que uma história sobre abóboras o conto que narramos no território de ontem fala sobre várias questões importantes: Bondade,justiça,preconceito,fé,fraternidade e verdade.
    Sem muito esforço podemos adaptar essa história em nosso dia a dia onde nada parece o que é e. Qualquer um pode ter essas riquezas dentro se si .Podemos também analisar o quanto é importante acreditar no que sentimos e que sempre podemos dividir o pouco que se tem…

    “Sobre a lenda da Riqueza de Obará, descobri que eram dezesseis irmãos, Okaram, Megioko, Etaogunda, Yorossum, Oxé, Odí, Edjioenile, Ossá, Ofum, Owarin, Edjilaxebora, Ogilaban, Iká, Obetagunda, Alafia e Obará. De todos Obará era o mais pobre, e morava em uma casa de palha na floresta, com muita simplicidade e modéstia…
    Quando os irmãos foram fazer a visita anual ao babalaô ele perguntou: Onde estava o outro irmão? Disseram que houve um problema e ele não poderia comparecer, mas tinham mesmo vergonha do irmão por ser pobre. Foi quando o babalaô presenteou a cada irmão com uma lembrança simples e após a consulta foram todos para casa. Na volta reclamavam sem parar. “Isso é presente que se dê? Abóboras?” .
    Já era tarde e ao passar próximo da casa do irmão eles resolveram então passar a noite lá. Chegando na casa , todos entraram e foram muito bem recebidos, Obará pediu a esposa que preparasse comida e bebida a todos, e acabaram com toda comida na casa. Logo os irmãos foram embora sem agradecer, mas antes lhe deixaram as abóboras como presente, até porque de nada esse presente valia para os irmãos.
    No almoço, a esposa de Obará falou que não havia mais nada o que comer, só as abóboras que não estavam boas, mas Obará pediu-lhe que as fizesse assim mesmo. Quando abriram as abóboras, haviam riquezas em ouro e pedras preciosas e Obará prosperou.
    O tempo passou e os irmãos de Obará estavam na miséria, e voltaram ao Babalaô para resolver a situação, ao chegar lá escutaram o povo saldando um príncipe em seu cavalo que mudava de cores e muitos servos em sua comitiva entrando na cidade.Ao olhar para o príncipe perceberam que era seu irmão Obará e perguntaram ao Babalaô como poderia ser possível! Ele respondeu: Então…sabe aquelas abóboras que dei com tanto carinho a cada um de vocês? Dentro haviam riquezas em pedras e ouro mas a vaidade e orgulho não vos deixaram ver e hoje quem era o mais pobre tornou-se o mais rico.
    Os irmãos foram ao palácio de Obará para tentar recuperar as abóboras, disseram a Obará que devolvessem as abóboras e Obará assim o fez, mas antes esvaziou todas e disse: Eis aqui meus irmãos, as abóboras que me deram para comer, agora são vocês que as comerão.
    Ao visitar o palácio de Obará o babalaô lhe disse: Enquanto não revelares o que tens, tu sempre terás.
    E assim se explica o motivo que quem carrega este Odú não pode revelar o que tem.
    Uma vez revelado o segredo,corre se o risco de perder tudo, tal como os irmãos de Obará.”

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